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O que pensa Miguel Sousa Tavares do Big Brother!

O Miguel Sousa Tavares escreveu uma crónica após o primeiro Big Brother onde dava conta o que pensa sobre este tipo de programas. No geral era muito crítico porque não percebia o motivo pelo qual o Zé Maria era tão famoso! Agora pergunto eu: temos alguns famosos do bando dos croquetes como a Lili Caneças que merecem tudo porquê? Uma personagem criada à uns 30 ou 40 anos porque era gira, engraçada e tinha uns amigos… credo!


” Há dias, de passagem por uma terrazinha do interior, dei com um cartaz afixado numa parede que anunciava para a discoteca local :«Esta noite com a presença do Zé Maria». E eu, que embora não tenha visto mais de meia hora de Big Brother, não desconheço quem é o Zé Maria e até o acho um tipo simpático, dei comigo, todavia, a pensar: «E o que fará o Zé Maria, para lém da sua presença e que possa justificar o cachet que obviamente cobra? Vejamos: ele não canta, não dança, não representa, não encena ou apresenta qualquer espectáculo. O que faz ele?». Nada, respondeu-me um amigo meu a quem coloquei esta dúvida. «Nada. Dá autógrafos». Mas, dá autógrafos porquê, se o que o caracteriza é exactamente não fazer nada que possa interessar ao público? «Porque – respondeu-me ele – é o Zé Maria e por isso as pessoas vão vê-lo e pedir-lhe autógrafos».
Lembrei-me disto esta semana, quando li no jornal que o Zé Maria e a Suzana (é extraordinário como eles nem apelido precisam de ter…) tinham cobrado 5.000 contos cada um à Camara de Loulé para desfilarem um dia no Carnaval de Loulé. E eu lá os vi na televisão, desfilando no Carnaval de Loulé. Desfilando é um termo exagerado: eles, de facto, não faziam nada, não cantavam, não dançavam, não faziam srtip-tease como no Brasil, nem sequer iam mascarados. Limitavam-se a ser transportados no alto de um palanque sobreposto num tractor, acenando á multidão, como os generais romanos vitoriosos desfilando perante o povo. E a coisa, segundo o presidente da Câmara de Loulé, foi um êxito: 40.OOO pessoas pagaram bilhete só para verem o Zé Maria e a Suzana dizer-lhes adeus lá do alto.

Manifestamente, estamos perante um novo fenómeno de massas e um novo tipo de heróis populares. Eles não precisam nem de ter profissão, nem de ter apelido, nem de ter actividade ou coisa alguma que os distinga ou que os faça serem admirados. Não, justamente a sua caução de heróis populares é não fazerem nada nem serem coisa alguma, para além de si próprios. È por isso que quando vemos serem entrevistadas as mães dos concorrentes do Big Brother e quando lhes perguntam porque acham que as suas filhas devem continuar na casa, elas respondem, com a convicção de quem está a dar um argumento arrasador: «Porque eu acho que ela ainda tem muito a dar ao programa. Vai continuar igual a si própria».


Assim, estes genuínos filhos do povo acabam de conquistar a televisão e, com ela, as audiências e as plateias e as multidões do país todo, com uma fórmula de sucesso imbatível e que é um verdadeiro Ovo de Colombo: não é preciso fazer nada nem ser coisa alguma, basta existir e estar lá. E, se a televisão é hoje um primeiro e importantíssimo patamar do poder, é interessante especular se o fenómeno Zé Maria não será um dia extrapolável a outras formas de poder. Há muitos anos atrás, longe de imaginar a televisão e a mudança radical que ela viria a representar na vida em sociedade, Eça de Queiróz ficcionou um personagem que, vindo do nada, subiu na vida e na carreira política até chegar ao topo, sem nunca ter feito nada que o distinguisse dos demais, nem ao menos um discurso no Parlamento – antes pelo contrário, guardando-se de dizer ou fazer o que quer que fosse que pudesse quebrar a unanimidade do prestígio e popularidade de que gozava. O personagem chama-se Pacheco e está nas Prosas Bárbaras, do Eça. Recomendo vivamente a sua leitura.”

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